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terça-feira, 2 de junho de 2009

antes do nada

(para Gabriela Malentacchi)

Não sei se matei
o grito sem deixar
silêncio.

O fato é que
até a poesia se cala:

Nem no face
a cara
me faço
entender.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

penso logo alto

logo penso quando vejo
essa lua lá embaixo:

ou o mundo inverteu
ou alguém bebeu
(eu (os dois) ou deus)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

se disser que eu desafino

Bem no alto desse morro
no meu grito de socorro
(que seria em aramaico
mesmo sendo grito laico).
Mas virou um som de shopping,
rascunho de Janis Joplin;
lamento em tom de blues
que nem mesmo sabe dos
acordes do velho negro,
cantador de olhos vesgos
que se vê em Garanhuns.

segunda-feira, 30 de março de 2009

pássara

(diálogos com J. R. Lima e Ana Dundes)

Passara.
E se ex-pássara
água-se
(tecida de vagas)
e se esgarça.

quinta-feira, 26 de março de 2009

desembucha!

Ligo só pra perguntar
sobre o que aconteceu.
Quero tirar da cabeça
umas dúvidas macabras
(será que foi sequestrada?
ou será que já morreu?).
Mas se é outro o motivo
que explica seu sumiço,
eu digo que só admito
ouvir dessa sua boca:
que te levaram embora
ou, melhor, que está morta.

quarta-feira, 25 de março de 2009

divisão celular

Um passo
ou dois gerando não mais
do que o espaço -
distância do esticar de braço.
Mais um passo,
ou dois no máximo,
e ainda está assegurado
outro tipo de contato:
se o tato escapa,
subsiste, no entanto, o laço,
mais sutil é fato,
do olhar.
O tato já não mais;
vai-se junto o olfato;
vez ou outra um sinal
faz o tímpano vibrar -
memória tátil.
Eis que a trajetória errática
promove retornos inusitados.
Nada há com o que se entusiasmar:
o ponto inicial
não é ponto de chegada,
mas de passagem.
De situação privilegiada
o ponto de origem não tem nada.
Se é visto como ponta de compasso
de onde os sentidos nascem
é apenas porque a mirada
de imparcial não tem nada.
E tudo assim se passa;
ora se aproxima, ora se afasta,
em passadas cada vez mais largas.
O fato é que volta já não há mais;
se é caso de tempo ou de espaço
a questão eu repasso.
Agora, aqui, só um vácuo.
De lento em lento nem percebi.

segunda-feira, 23 de março de 2009

personaepersona

do fim ou
do fundo vão
-se juntos
em cantos
dos mundos
confins
de muitos
tantos de mins

sábado, 24 de janeiro de 2009

ato pronunciado

(tema e variações)

I.
no anúncio do
silêncio
saltaram da língua
suicidas:
nunca mais foram
as últimas

II.
no anúncio do silêncio
suicida
saltou da língua:
jamais
foi a última

III.
no anúncio
(o silêncio)
a língua
expulsou
assassina:
não
foi a última

IV.
sem anúncio
expulsou
a língua
assassina:
silêncio
fez a vítima

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

nem mesmo o mesmo rio

rio
que não conhece o correr
que sempre fluiu

rio que nasceu
um instante
de ser
sempre viveu

rio intervalo
entre pontas inexistentes
sob pontes molduras
sobre ralos

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

santa de barro

palavra e
palavra em
fila

andor vazio

idéia vaga
sozinha

sábado, 27 de dezembro de 2008

mudança de quase

durmo rio acordo
(seriamente)
naquele estado

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

entre um instante (atma)

no átimo entre
o último suspiro
e a morte
encontrou um instante

entre o instante
e a morte
um instante

entre o entre
um ente

e viveu para sempre

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

limiar

ontem
gatilho
hoje
disparo antes
do tiro

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

uma porta (entre)

a mão permaneceu na maçaneta
entre um recomeço e um adeus

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

vertigem

na beira da vertigem sentir com os pés a borda do abismo suster-se no ponto do não mais até não mais cair e cair e cair e cair em si em silêncio

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

diálogos: diábolos

falo com
sua boca

- silêncio -

que parte de
mim você
quer mais
que eus

domingo, 30 de novembro de 2008

passagens

o que vê nessa
hora

a luz
já foi

embora rastros

sábado, 15 de novembro de 2008

primeiro ato

corpo oculto
que os olhos não
que as mãos
que sabe a sal

corpo justo
entre as paredes
entre tantas
aquelas

corpo estranho
que o contorno
que forma o espaço

corpo bruto
entre as paredes
entre o corpo
nada

corpo sem escolha
que a ida
que a volta

corpo parte
e outro

corpo presente
e antes

corpo sem

corpo

domingo, 9 de novembro de 2008

e sós

só eu
erro
com meu
erro
como eu
somos
como sói
sou
e sós

e só

um equívoco
senão uma coisa
minha que eu
e só

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

tão perto, tão

tempo pouco para que
o fogo

pele muita em estado de
perto

muito de
perto

mais de
perto de dentro

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

caderno de viagens

olho na

água o papel

afogado na
onda voz da

sereia

barco

íris em
verde luzente de
sede corpo de

trajetos seus

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

laboratório de desconforto

o que vai
fazer amanhã
não
fica comigo
hoje vamos
parar agora

domingo, 26 de outubro de 2008

dois ou um

plena presença
sua sinto eu
inteiro sente
você onde
começa
nem termina

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

o dia em que o terrível demônio de vestes rubras gritou mais alto que o grande sino de bronze da nobre igreja londrina

stou peg
ando fog

terça-feira, 30 de setembro de 2008

olhos de lobo

hoje o
lobo
eu
olhou

nos olhos
vis em mim
a fera viu
em nós

domingo, 28 de setembro de 2008

rotas













(diálogos com Rafael Karelisky. foto: Rafael Karelisky)


via brota sem
ida sem
volta sem

janela
mostra (se)
e somente se
reticente se
porta

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

lux que luxa













(diálogos com Rafael Karelisky. foto: Rafael Karelisky)


quando à luz

os olhos
breus

(e a luz
os olhos

fez)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

keep walking III

o chão de madeira

a casa velha
nas costas
durante anos
a casa morreu

o último a partir

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

keep walking II

e o caminho
deitado no chão
recortava compreensões
para os meus pés

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

keep walking

estes chãos
os meus
pés

conheciam

os caminhos
antes deles

domingo, 31 de agosto de 2008

ele sou

água no rosto
leva
momentos no espelho
(ainda é ontem)
lava
nem tão longe
fria
nem desperta

sábado, 30 de agosto de 2008

entre

você está entrando
na casa velha o chão

de madeira escuta
o rádio a música

antiga cheira
a parede verde
escuro o silêncio

que emoldura

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

força do hábito

a casa impecável como
de hábito mas a colher

sempre assim mas
a água na pia o sapato

o tapete da porta da sala
o seu toque de desencanto

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

almirante

(diálogos com Ana Dundes)

na sacanagem embarca
deixa as botas
enterra

terça-feira, 5 de agosto de 2008

biciclos

a garota
aros grossos
cruza a rua
linhas curvas
a cabeça
desapruma
pelos eixos
pela ótica
pêlos
lentes
peles
olhos

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

socos amarelos

socos amarelos
desferidos contra meu sorriso acrítico
quebraram meus centros
precisarei de próteses canônicas

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

sublingual

domingo, 27 de julho de 2008

orbitando

se esfera
tem fama
de forma perfeita
não sei
se compreende
redondeza
se esférico
envolve meio
conhece inteiro

sexta-feira, 25 de julho de 2008

trava-língua

Algumas palavras, um gole (como se a intercompreensão fosse inerente à conversa).
E a merda está feita. Inegociável. Irreversível.
Na auto-punição, miro meu pé e acerto o seu.
O juiz bate (seco) o martelo na mesa do bar: culpado.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

fratricida

a barata na parede branca
compreende o Arvo Pärt
com passo lento reverente
contínuo
prefere seguir em frente
sem dividir

terça-feira, 3 de junho de 2008

encantos

Uma reportagem mostrava que algumas espécies animais podem paralisar outras por meio de substâncias alucinógenas ou de um efeito de encantamento.
Tempos depois, não consegui dormir numa noite. Na manhã seguinte, uma ligação telefônica deixou a cozinha a quilômetros do meu quarto.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

dormindo de barriga pra cima

vôo entre carros
virado de bruços
em forma de cruz
vôo não-pássaro

rasante veloz
braços soltos
quase imóveis

vôo pouco acima
da rua avenida

vôo de novo o vôo

sábado, 29 de março de 2008

vai-se

pérola
mordo
temendo
perdê-la

elementar II

assim estendido
por um tudo ou por um quase
volto ao princípio
quando o verbo se faz carne

domingo, 23 de março de 2008

bebop


sexta-feira, 7 de março de 2008

buda




arlequinal

volver da vulva festiva
vestida em cores fingidas
(de cabo a rabo
esmaecidas)

petúnia deflorada
outrora hercúlea

agora colombina
desvalida

termos-língua

falamos os mesmos sonhos
em termos-língua

líquidos espessos
copiam contornos indecisos

sondas que se enrolam
exploram o que se pronuncia
roubam do sono
o tanto que somos de fantasia
somam os sins dos sons
aos nãos dos sentidos

ao fim
malemolente
sobra a boca-sino

sábado, 16 de fevereiro de 2008

tartaruga